Termoquímica & Cinética Química
Toda reação química responde a duas perguntas. Quanta energia ela troca com o ambiente? E com que rapidez ela acontece? A termoquímica cuida da primeira. A cinética, da segunda. Aqui está tudo o que cai, explicado do zero.
Termoquímica
Estuda o calor que entra ou sai durante uma reação. A pergunta central é sempre a mesma: a reação libera ou absorve energia, e quanto?
Calor, sistema e entalpia
Sistema é o que estamos estudando (a reação, o frasco). Vizinhança é todo o resto (o ar, a sua mão, a água em volta). O calor sempre passa do mais quente para o mais frio.
Entalpia (H) é o “conteúdo de energia” guardado nas substâncias. Não dá para medir o H de uma substância sozinha, mas dá para medir a variação dele numa reação. Essa variação é o famoso ΔH:
Para medir calor no laboratório usa-se o calorímetro, e a conta é a da calorimetria:
Quanto calor é preciso para aquecer 200 g de água de 20 °C até 70 °C?
Q = 200 · 1 · (70 − 20) = 10 000 cal = 10 kcal
≈ 41,8 kJ (porque 10 000 × 4,18 = 41 800 J)
Exotérmica × endotérmica
Essa é a divisão mais importante da matéria. Decorar o sinal do ΔH resolve metade das questões.
Exotérmica
ΔH < 0 (negativo)Libera calor. Os produtos ficam com menos energia que os reagentes, e a sobra sai para o ambiente, que esquenta.
- Combustão (vela, gás de cozinha, gasolina)
- Respiração celular
- Condensação, solidificação
- Dissolver NaOH em água
Endotérmica
ΔH > 0 (positivo)Absorve calor. Os produtos ficam com mais energia que os reagentes. A energia vem do ambiente, que esfria.
- Fotossíntese
- Cozinhar um alimento
- Fusão, vaporização, sublimação
- Compressa fria (NH4NO3 em água)
O que muda o valor do ΔH
1. Estado físico. A mesma substância tem mais energia no estado gasoso, menos no líquido e menos ainda no sólido. Por isso subir na escada absorve calor e descer libera.
2. Forma alotrópica. Alguns elementos existem em mais de uma forma (alótropos). A forma mais estável tem menos energia e é a que recebe H = 0 no estado padrão.
| Elemento | Mais estável (H = 0) | Menos estável (H > 0) |
|---|---|---|
| Carbono | grafite | diamante |
| Oxigênio | O₂ (gás oxigênio) | O₃ (ozônio) |
| Enxofre | rômbico | monoclínico |
| Fósforo | vermelho | branco |
3. Quantidade. O ΔH é proporcional à quantidade de matéria. Queimar 2 mol libera o dobro de queimar 1 mol.
4. Temperatura e pressão. Mudam o valor, por isso existe um “padrão” combinado, que é o próximo tópico.
Estado padrão e entalpia zero
Para todo mundo comparar valores igual, combinou-se um estado padrão: 25 °C, 1 atm e a substância na sua forma mais estável. Valores medidos assim ganham uma bolinha: ΔH°.
Tipos de entalpia que mais caem
Entalpia de formação
Calor envolvido para formar 1 mol de uma substância a partir das substâncias simples no estado padrão.
C(graf) + O₂(g) → CO₂(g)
ΔH°f = −393,5 kJ/mol
Entalpia de combustão
Calor liberado na queima de 1 mol de combustível com O₂. É sempre exotérmica.
CH₄ + 2 O₂ → CO₂ + 2 H₂O(l)
ΔH = −890 kJ/mol
Entalpia de neutralização
Ácido forte + base forte formando 1 mol de água. Vale sempre cerca de −57,7 kJ/mol, porque no fundo a reação é a mesma: H⁺ + OH⁻ → H₂O.
Entalpia de dissolução
Calor ao dissolver uma substância. Pode ser exo ou endo.
No dia a dia: soda cáustica (NaOH) na água esquenta. Nitrato de amônio na água esfria, e é assim que funciona a compressa fria instantânea.
Energia de ligação
Energia para quebrar 1 mol de uma ligação, com tudo no estado gasoso. Quebrar sempre absorve (valor positivo). Formar sempre libera.
H–H(g) → 2 H(g) ΔH = +436 kJ/mol
Mudança de estado
Calor de fusão, vaporização etc. A da água é bem cobrada:
H₂O(s) → H₂O(l) ΔH = +6,0 kJ/mol
H₂O(l) → H₂O(g) ΔH = +44 kJ/mol
Equação termoquímica e suas 2 regras de ouro
É a equação química completa: com coeficientes, estado físico de cada substância (s, l, g, aq) e o ΔH do lado. Se não estiver no padrão, também informa temperatura e pressão.
Regra 1 · Multiplicou, multiplica o ΔH
Dobrou os coeficientes? Dobra o ΔH. Dividiu por 2? Divide o ΔH.
2 H₂ + O₂ → 2 H₂O ΔH = −571,6 kJ
Regra 2 · Inverteu, troca o sinal
Virou a equação de trás para frente? O ΔH fica com sinal oposto.
H₂O → H₂ + ½ O₂ ΔH = +285,8 kJ
A combustão do metano libera 890 kJ por mol. Quanto calor sai ao queimar 32 g de CH₄? (C = 12, H = 1)
- Massa molar do CH₄: 12 + 4 × 1 = 16 g/mol.
- 32 g ÷ 16 g/mol = 2 mol.
- 1 mol → 890 kJ, então 2 mol → 2 × 890.
1 780 kJ liberados
Lei de Hess
O ΔH de uma reação só depende do começo e do fim, não do caminho. Então, se uma reação é difícil de medir, você monta ela somando outras reações conhecidas, como peças de quebra-cabeça. O ΔH final é a soma dos ΔH das peças.
Calcule o ΔH de C(graf) + ½ O₂ → CO sabendo que:
- Na resposta, o C está nos reagentes. Na equação I ele também está. Mantém a I.
- Na resposta, o CO está nos produtos. Na equação II ele está nos reagentes. Inverte a II e troca o sinal: CO₂ → CO + ½ O₂ ΔH = +283,0 kJ
- Soma tudo. O CO₂ aparece dos dois lados e cancela. Sobra 1 O₂ − ½ O₂ = ½ O₂ nos reagentes.
- ΔH = −393,5 + 283,0
ΔH = −110,5 kJ
Calculando ΔH com entalpias de formação
Quando a questão dá uma tabela de ΔH de formação, é só aplicar a fórmula. Lembre que substância simples no padrão vale zero, e multiplique pelo coeficiente.
Calcule o ΔH de CH₄(g) + 2 O₂(g) → CO₂(g) + 2 H₂O(l).
| Substância | ΔH°f (kJ/mol) |
|---|---|
| CH₄(g) | −74,8 |
| O₂(g) | 0 |
| CO₂(g) | −393,5 |
| H₂O(l) | −285,8 |
- Produtos: −393,5 + 2 × (−285,8) = −965,1
- Reagentes: −74,8 + 2 × 0 = −74,8
- ΔH = −965,1 − (−74,8) = −965,1 + 74,8
ΔH = −890,3 kJ (exotérmica, como toda combustão)
Calculando ΔH com energias de ligação
Pense na reação em dois tempos: primeiro quebra todas as ligações dos reagentes (gasta energia), depois forma as ligações dos produtos (libera energia). O saldo é o ΔH.
Calcule o ΔH de H₂(g) + Cl₂(g) → 2 HCl(g). Dados: H–H = 436, Cl–Cl = 243, H–Cl = 432 (kJ/mol).
- Quebradas (reagentes): 1 H–H + 1 Cl–Cl = 436 + 243 = +679 kJ
- Formadas (produtos): 2 H–Cl = 2 × 432 = 864 kJ
- ΔH = 679 − 864
ΔH = −185 kJ (exotérmica: formou mais energia do que gastou)
Cinética Química
Estuda a velocidade das reações e o que faz elas andarem mais rápido ou mais devagar. A ferrugem leva anos, uma explosão leva milésimos de segundo. Por quê?
Velocidade de uma reação
É quanto de reagente some (ou quanto de produto aparece) num certo tempo. Usa-se módulo porque o reagente diminui e daria número negativo.
As velocidades de cada substância seguem a proporção dos coeficientes. Para ter uma velocidade “da reação” única, divida pelo coeficiente.
Em N₂ + 3 H₂ → 2 NH₃, formam-se 0,8 mol/L de NH₃ em 2 minutos. Ache as velocidades.
- v(NH₃) = 0,8 ÷ 2 = 0,4 mol/L·min
- Proporção 1 : 3 : 2. Se o NH₃ (2) anda a 0,4, cada “1” vale 0,2.
- v(N₂) = 0,2 · v(H₂) = 3 × 0,2 = 0,6
v(N₂) = 0,2 · v(H₂) = 0,6 · v(NH₃) = 0,4 · v(reação) = 0,2 mol/L·min
Teoria das colisões
Para duas moléculas reagirem, elas precisam se trombar. Mas não basta qualquer trombada. A colisão só forma produto (colisão efetiva) se tiver:
- Orientação favorável: as moléculas precisam bater “do lado certo”, onde as ligações vão se rearranjar.
- Energia suficiente: a batida precisa ter energia igual ou maior que a energia de ativação (Eₐ).
Daqui sai a regra geral de toda a cinética: tudo o que aumenta o número de colisões efetivas aumenta a velocidade.
Energia de ativação e complexo ativado
Imagine empurrar uma bola por cima de um morro para ela rolar até o outro lado. O morro é a energia de ativação: a energia mínima para a reação começar. Mesmo reações exotérmicas precisam desse empurrãozinho (o fósforo precisa ser riscado para o palito acender).
No topo do morro fica o complexo ativado: um estado intermediário, muito instável, em que as ligações velhas estão se quebrando e as novas estão se formando ao mesmo tempo.
- Eₐ grande → poucas colisões conseguem passar → reação lenta.
- Eₐ pequena → muitas colisões passam → reação rápida.
- Relação útil: ΔH = Eₐ(direta) − Eₐ(inversa)
Laboratório de colisões
Mexa nos controles e veja a teoria funcionando. As bolinhas laranja e azuis são reagentes. Quando batem com força suficiente (acima da Eₐ), viram produto roxo.
Fatores que mudam a velocidade
Todos eles se explicam pela teoria das colisões. Guarde o motivo, não só o nome.
Temperatura ↑
Moléculas ficam mais agitadas: batem mais vezes e com mais força, então mais colisões passam da Eₐ. Regra prática de Van't Hoff: +10 °C ≈ velocidade dobra.
Dia a dia: a geladeira conserva comida. A panela de pressão cozinha mais rápido porque a água ferve a uma temperatura maior.
Concentração ↑
Mais partículas no mesmo espaço, mais trombadas por segundo.
Dia a dia: abanar a churrasqueira leva mais O₂ e o carvão queima mais forte.
Superfície de contato ↑
Quanto mais picado o sólido, mais área exposta para colisões.
Dia a dia: comprimido efervescente amassado dissolve mais rápido. Graveto acende antes da tora. Carne moída estraga antes do bife.
Pressão ↑ (só gases)
Apertar um gás é o mesmo que aumentar a concentração dele: as moléculas ficam mais próximas.
Catalisador
Abre um caminho alternativo com Eₐ menor. Tem um tópico só dele logo abaixo.
Dia a dia: enzimas da digestão, catalisador do escapamento do carro.
Luz e eletricidade
Fornecem energia para ativar algumas reações (fotólise).
Dia a dia: água oxigenada vem em frasco escuro para a luz não decompor ela.
Natureza dos reagentes também conta: quanto mais ligações fortes para quebrar, mais lenta. Reações entre íons em solução costumam ser quase instantâneas.
Catalisadores
Substância que acelera a reação sem ser consumida: ela participa no meio do caminho e é devolvida inteira no final. Por isso basta uma quantidade pequena.
O que o catalisador FAZ
- Diminui a energia de ativação
- Cria um novo caminho (mecanismo) para a reação
- Acelera a reação direta e a inversa igualmente
- Faz chegar ao equilíbrio mais rápido
- É recuperado no final, sem mudanças
O que ele NÃO faz
- Não muda o ΔH
- Não aumenta a quantidade de produto (rendimento)
- Não faz acontecer uma reação impossível
- Não muda a energia dos reagentes nem dos produtos
- Catálise homogênea: catalisador e reagentes na mesma fase (tudo dissolvido, por exemplo).
- Catálise heterogênea: fases diferentes. Exemplo: gases do escapamento passando por metais sólidos (Pt, Pd, Rh) no catalisador do carro.
- Enzimas são os catalisadores biológicos, feitas de proteína.
- Inibidor é o contrário: deixa a reação mais lenta. Conservantes de alimentos funcionam assim.
Lei da velocidade
Também chamada de Lei de Guldberg-Waage ou lei da ação das massas. Ela diz como a velocidade depende da concentração dos reagentes.
- Reação elementar (acontece numa etapa só): os expoentes são os próprios coeficientes. Ex.: 2 NO + O₂ → 2 NO₂ elementar → v = k[NO]²[O₂], 3ª ordem.
- Reação não elementar: os expoentes vêm de experimentos (tabela) ou da etapa lenta.
- Sólidos e líquidos puros não entram na lei. Ex.: C(s) + O₂(g) → CO₂(g) → v = k[O₂].
Para a reação A + B → C, foram medidos:
| Exp. | [A] (mol/L) | [B] (mol/L) | v (mol/L·s) |
|---|---|---|---|
| 1 | 0,10 | 0,10 | 2,0 × 10⁻³ |
| 2 | 0,20 | 0,10 | 4,0 × 10⁻³ |
| 3 | 0,10 | 0,20 | 8,0 × 10⁻³ |
- Compare 1 e 2: só [A] mudou, e dobrou. A velocidade dobrou (×2 = 2¹). Então ordem 1 em A.
- Compare 1 e 3: só [B] mudou, e dobrou. A velocidade ficou 4 vezes maior (×4 = 2²). Então ordem 2 em B.
- Lei: v = k[A]¹[B]². Ordem global = 1 + 2 = 3.
- Para achar k, use qualquer linha: 2,0 × 10⁻³ = k · 0,10 · (0,10)² → k = 2,0.
v = 2,0 · [A] · [B]² (3ª ordem)
Mecanismos: a etapa lenta manda
Muitas reações acontecem em várias etapas. A velocidade total é decidida pela etapa mais lenta, igual a uma fila: não adianta o caixa ser rápido se a balança da padaria é devagar. A lei da velocidade usa os coeficientes da etapa lenta.
Reação global: NO₂ + CO → NO + CO₂
O CO nem aparece na lei, porque não participa da etapa lenta. E o expoente do NO₂ é 2, não 1 como na reação global.
v = k · [NO₂]²
Substâncias como o NO₃, que são formadas numa etapa e consumidas na seguinte, se chamam intermediários. Elas não aparecem na equação global. No gráfico de energia, cada etapa vira um “morrinho”, e o morro mais alto é o da etapa lenta.
Pegadinhas que derrubam muita gente
- ΔH negativo significa que a reação absorve energia.Negativo = exotérmica = libera calor. O sistema perdeu energia.
- O catalisador aumenta a quantidade de produto.Ele só faz o produto aparecer mais rápido. A quantidade final é a mesma, e o ΔH também.
- Aumentar a temperatura só acelera reações endotérmicas.Aumentar a temperatura acelera qualquer reação, exo ou endo.
- Na lei da velocidade, o expoente é sempre o coeficiente da equação.Só se a reação for elementar. Se não for, vem da tabela ou da etapa lenta.
- O diamante tem entalpia zero.Zero é o grafite, a forma mais estável do carbono. Mesma ideia: O₂ vale zero, O₃ não.
- Evaporar água libera calor.Evaporar (líquido → gás) absorve. É por isso que o suor resfria a pele.
- Na energia de ligação, ΔH = formadas − quebradas.É quebradas − formadas. Na de formação é produtos − reagentes. Não troque as duas.
- Sólidos entram na lei da velocidade.Sólidos e líquidos puros ficam de fora. O que muda neles é a superfície de contato, não a concentração.
Revisão em 1 minuto
Termoquímica
- ΔH = Hprodutos − Hreagentes
- ΔH < 0 exo (libera) · ΔH > 0 endo (absorve)
- Energia: gás > líquido > sólido
- H = 0: substância simples, forma mais estável, 25 °C e 1 atm
- Multiplicou a equação → multiplica ΔH
- Inverteu a equação → troca o sinal
- Hess: soma as equações, soma os ΔH
- Formação: ΔH = Σ prod − Σ reag
- Ligação: ΔH = Σ quebradas − Σ formadas
- Combustão: sempre exotérmica
Cinética
- v = |Δquantidade| / Δt, proporcional aos coeficientes
- Colisão efetiva: orientação certa + energia ≥ Eₐ
- Eₐ menor → reação mais rápida
- Acelera: temperatura, concentração, superfície, pressão (gás), catalisador, luz
- +10 °C ≈ velocidade × 2
- Catalisador: abaixa Eₐ, não muda ΔH nem rendimento
- v = k[A]x[B]y
- Elementar: expoente = coeficiente
- Não elementar: tabela ou etapa lenta
- Sólido e líquido puro fora da lei
Quiz de fixação
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